As pessoas vão para o cinema pelos motivos mais diversos possíveis. Pra namorar, por falta do que fazer, pra dormir, pra ser vela de algum amigo. E eventualmente tem aquela galera que realmente quer ver o filme. Mas mesmo dentro desse grupo, as pessoas buscam coisas muito diferentes no cinema. Tem as que preferem se divertir, as que querem mesmo é chorar e afogar as mágoas e, claro, temos os nossos amigos cinéfilos que curtem aqueles filmes bizarros que nem sempre fazem muito sentido, só pela apreciação da arte mesmo.
Eu não sei exatamente se posso ser considerada cinéfila. Tenho serias restrições a respeito de filmes que vão de nada a lugar nenhum só pela diversão da caminhada. Não sou muito chegada em assistir nada que pretenda revolucionar o jeito de filmar, mas que ao mesmo tempo não esteja preocupado em contar uma historia minimamente interessante.
E eu tô falando tudo isso pra que? Porque desde o dia 22 de outubro está acontecendo em São Paulo a 34ª Mostra Internacional de Cinema. E eu já encontrei todos esses tipos de pessoas nas sessões a que fui até agora. Isso me deixou cada vez mais convencida de que eu sou um tipo muito tradicional de espectador. Não no sentido de não gostar de inovações de direção, roteiro, seja lá o que for. Eu gosto. Mais do que gosto, eu adoro. Agora, tudo tem limite nessa vida. Como eu disse, pra mim você pode inovar o quanto quiser, desde que essa inovação seja feita dentro de um contexto, contexto este pelo qual eu possa me interessar, nem que seja só um pouquinho. Pra mim, cinema tem uma função principal muito importante, de que eu não abro mão: contar uma história. Então pra mim, se o filme não conta história nenhuma, não é cinema, é alguma experiência alucinógena ou whatever, mas não é cinema.
Dos filmes que vi até agora (a lista tá ali embaixo), me senti parte de algum projetinho de ciências de diretores pelo menos uma vez.
- *Reprise
- *Cleveland VS. Wall Street
- *Mamma Gogo
- *Never Let me Go
- *Aurora
- *Caterpillar
- *Vespa
- *Do amor e outros demônios
- *Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas
- *O Homem que amava Yngve
- *Vips
- *Minha Felicidade
Tomemos como exemplo Aurora. Fui euzinha pro Conjunto Nacional, às 12h de um sábado, sem almoçar, na chuva, tendo dormido só 6 horas, depois de uma viagenzinha até a rodoviária do Tietê pra comprar passagem. Mesmo com tudo isso, eu fui, afinal o filme tava na seleção oficial de Cannes, pô, eu tinha que ver.
É uma produção romena bem longa, de 181 minutos, que se torna praticamente infinita enquanto você está vendo. Isso porque a coisa é lenta, meus amigos, mas é lenta DEMAIS. E os franceses que me desculpem, mas eu não vi graça nenhuma.
Pra não dizer que não falei das flores, vamos a uma mini sinopse: temos um cara que se chama – IMDb, me ajude – Viorel. Esse fulano tem uma vida no mínimo estranha. Ele passa horas dentro de um apartamento, transa com uma mulher enquanto a filha dela tá dentro de casa, praticamente vendo os dois se agarrando, enfim. Até aí, ok, tem muita gente esquisita no mundo, plenamente válido. O problema é que o filme fica os seus 181 minutos mostrando cada coisa que o infeliz do Viorel faz. E quando eu digo cada coisa eu quero dizer cada mínimo detalhe. Eu não tive a pachorra de contar, mas garanto que tem sequências inteiras de pelo menos 30 minutos sem nenhuma fala. Se nem um 'oh'.
Como eu já disse, o fulano Viorel é louco. Ele resolve que vai matar uma galera. Mas não é nada assim ‘uau, tenho um plano, vou colocar em ação uma história bem elaborada que vai virar história de TV e cinema e vai ser super legal de assistir’. Não. Ele parece que faz questão de fazer tudo de maneira altamente monótona.
Então é assim: você vê ele montar a arma. Vê ele testar a arma num colchão. Vê ele dirigir até um hotel, estacionar, arrancar a arma do carro, tentar entrar no hotel (umas 3 vezes), subir escada, descer escada, se esconder, achar o sicrano em que ele quer atirar e, finalmente, sem soltar nem um ‘ah’, matar não só esse fulano, que depois você descobre ser o ex-sogro dele, como também uma mulher que teve a má sorte de estar por perto no momento.
E daí, como se nada tivesse acontecido, ele vai pra casa da mãe, deixa umas coisas lá, arruma umas brigas com o padrasto, vagueia pela cidade – um tempo infinito, diga-se de passagem – e vai pra casa da ex-mulher matar a coitada. E matar o cara que entra pra ver se tinha acontecido alguma coisa com a infeliz, mas isso é um efeito colateral. Simples assim. Daí ele vê um pouco de TV, arruma umas coisas, come um pouco e vai buscar a filha na escola. O.O WTF?
Deixa a filha com uma vizinha da mãe, vai pra delegacia e se entrega, sem mais nem menos. E quando o policial pergunta o que todo mundo quer saber desde o começo da carnificina ‘mas, meu filho, por que diabos você matou essas pessoas?’, o cara não responde. NÃO RESPONDE. E acabam os 181 minutos. Fim.
Tá entendendo porque eu me senti um ratinho de laboratório?
E assim, pode ser que o filme seja bom pra caramba. Provavelmente é o caso. Mas eu não to nem aí. Eu não fui no cinema pra sair de lá com uma espécie de sentimento que diz ‘a vida é mesmo assim, você anda por aí, até que aparece um louco com uma espingarda e te mata’. Pô, eu acho que mereço um pouco mais do que isso, afinal paguei 165 reais pra comprar a credencial da Mostra, caramba.
Então a menos que alguém consiga me explicar qual o real motivo desse filme ter sido feito, além da diversão do pessoal envolvido com a produção e, obviamente, dos cinéfilos malucos, que vão tentar descobrir a roda a partir de cada atitude do Viorel, como sempre acontece, eu continuo achando uma perda de tempo.
Mas nem tudo é ruim, gente. Muito pelo contrario, até agora eu fui em mais filmes bons do que ruins. :D
Eu fui ver Caterpillar logo depois de sair de Aurora, na mesma sala (e, incrivelmente, na exata mesma poltrona, que depois de 3 horas de filme romeno chatopracaralho já tinham ficado com a minha bunda permanentemente marcada). Ta aí um filme totalmente nojento, que mostra como o ser humano pode ser uma coisa estupidamente escrota, e que nem por isso deixa de ser bom, muito bom. É paradão, japonês, da época da 2ª Guerra, enfim, não o seu típico filme blockbuster, bem pelo contrario, mas que ainda assim tem uma historia pra contar.
Foi provavelmente um dos filmes mais tensos que eu já vi. Quando o ‘caterpillar’ aparece pela primeira vez... outch! É um homem sem braços e sem pernas, com uma parte do rosto queimada. E olha que eu tô relativamente acostumada com deficiência, hein? Minha mãe fefz educação especial, portanto eu cresci amiga de alguns deficientes e vendo ela cuidar de outros. Mas o jeito que eles apresentam a figura no filme é bem impactante. Não vou contar detalhes porque espero que alguém tenha a chance de ver antes da Mostra acabar, mas vale a pena, de verdade. Ou pelo menos eu achei que valeu.
Ah, e um mea culpa rapidinho: eu comecei a fazer minha review da season finale de Mad Men, mas daí começou a Mostra e acabou minha vida. Então tenham paciência que em algum momento do futuro essa bendita review vai aparecer. Preciso rever o episódio e sinceramente ainda não tive tempo. Desculpas, de verdade.
Só digo uma coisa: eu adorei.